Jack - O emigrante

Atualizado: Abr 14

Quando uma história é contada não é esquecida. Torna-se outra coisa.

A memória de quem fomos. A esperança do que podemos vir a ser.


Estávamos em 1970 e a Praia da Costa da Caparica era ainda um areal sem pontões.


Todos os anos, no Verão, o meu Padrinho Jack vinha passar os seus 15 dias a Portugal. Tínhamos sempre que ter figos para ele - eu ficava horrorizado quando ele os comia inteiros, com casca e tudo. "Na América não há, e quando consigo da California são caríssimos, não se pode desperdiçar nada !" , dizia-me sempre.


Fui eu que tirei esta foto. Os meus pais faziam tudo para agradar os Americanos. Ficavam em nossa casa, e a forma de eles nos compensarem era sempre uma boa refeição, de preferencia no Estoril, com Lagosta Suada. Era o ponto alto das férias, para mim, que estava a entrar na adolescência e ainda muito apegado à família.


Naquela altura não tirava conclusões sobre o significado daquelas acções e da forma como socialmente a familia alargada se comportava. A América estava muito longe , não havia Internet, e o que é certo é que, no cinema, tudo parecia glamoroso, grande, perfeito.



O Padrinho Jack parecia de facto saído de um filme de Hollywood. Os óculos de sol Ray-Ban, a sua acompanhante "Flo", diminutivo de "Flora", que vinha do Canadá e falava francês. A necessidade de mostrar a ultima tecnologia fotográfica dos USA. Enfim, um show para os meus jovens olhos.


Mas , na realidade não havia nada de mais. Não era um gangster de Nova Iorque nem um grande milionário com um cadillac.


Era apenas um emigrante de sucesso. E é essa parte que na realidade é a mais importante. Aquela que nos dá caracter quando somos jovens. Aquela que devemos agradecer por ter tido oportunidade de a conhecer, temperada com o bom senso dos meus Pais, sempre presentes, a dosear o entusiasmo dos dólares americanos.


Sim, é essa a parte mais importante de toda a estória, ou melhor, parte da História de família.

O Padrinho Jack trabalhava numa fábrica , no tal "Rust Belt" que agora se fala, fazendo "double-shifts" para ganhar mais, e poder gozar os seus 15 dias de Férias em Portugal e gastar sem preocupações. Além disso, e após 20 anos de trabalho, juntou o suficiente para comprar uma casa, daquelas com jardim, e uma bandeira USA. Algo que a grande maioria dos Americanos tem como sonho de vida. E tinha muito orgulho nisso.


Decerto o leitor já percebeu onde quero chegar. A lição de vida para mim, e que aqui reporto, passados mais de 40 anos é agora muito clara. O trabalho compensa. Se trabalharmos muito conseguimos. O valor do trabalho vai ficando mais forte com estas pequenas lições e, em contrapartida, vai ficando mais fraco com outras, que não quero aqui mencionar. Ao fim dos primeiros 25 anos da nossa vida, entre o débito e o crédito destas pequenas lições, fica para sempre a nossa personalidade. Aquela que nos molda o futuro. E ajuda a moldar as gerações seguintes.


Porque quando uma história é contada não é esquecida. Torna-se outra coisa.

A memória de quem fomos. A esperança do que podemos vir a ser.


PS :


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Quando uma história é contada não é esquecida. Torna-se outra coisa.

A memória de quem fomos. A esperança do que podemos vir a ser...


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